domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sociologia da imperfeição

Fonte: JC e-mail 3950, de 12 de fevereiro de 2010


Sociologia da imperfeição



Zygmunt Bauman rebate aqueles que creem que as ciências sociais se tornaram inúteis. Para o autor polonês, elas continuam a desafiar os clichês do senso comum


A queda do Muro de Berlim, a crise do marxismo e a decadência das utopias tiveram efeitos devastadores sobre o saber sociológico. No mundo líquido, fragmentado e disforme onde vivemos, dominado pelas formas imperfeitas, não parece mais possível pensar no estudo científico das sociedades e na definição das leis que as regem. Para muitos, a sociologia perdeu a importância. Já não pode dar conta de um mundo que se dilui e não mais se submete a leis fixas.


Não é bem o que pensa o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, de 84 anos. Em "Aprendendo a Pensar com a Sociologia" (trad. Alexandre Werneck, Jorge Zahar Editor, 304 págs., R$ 29,90), livro escrito com Tim May, ele defende a ideia de que a sociologia continua potente, porque continua a desafiar os clichês do senso comum.




Praticada não mais como dogma, mas como um instrumento de interrogação da vida social, ela nos faz ver que os aspectos mais familiares da vida, aqueles que nos parecem simples e banais, podem ser repensados. Com isso, facilita o fluxo e a troca de experiências e transforma nosso cotidiano. Se a filosofia nos ajuda a morrer, a sociologia nos ajuda a viver.




Em seu novo livro, Bauman reflete sobre o modo como a sociologia pode nos ajudar, objetivamente, em nossa vida pessoal. A maneira como ela estabelece limites, molda perspectivas, enfim, desenha opções e, também, impossibilidades. A seu ver, a sociologia é, antes de tudo, uma prática. "Ao ampliar o horizonte de nosso entendimento, ela é capaz de lançar luz sobre o que de outra maneira poderia passar despercebido no curso dos acontecimentos", escreve.




A sociologia, diz Bauman, parte da constatação de que as condições gerais da sociedade produzem consequências drásticas em nossa vida pessoal. Que elas atingem nosso cotidiano e influem nas coisas mais banais da existência. Isso não quer dizer que não tenhamos escolha ou que não sejamos livres; quer dizer que essas escolhas e essa liberdade estão moldadas pela força das contingências. Saber pesar a relação entre liberdade pessoal e dependência é a chave do viver bem. Ficar só com um dos aspectos - julgar-se absolutamente livre ou irremediavelmente prisioneiro - só bloqueia nosso caminho.




A vida em sociedade nos leva a deparar com pessoas "estranhas", isto é, que não se enquadram em nossos modelos e expectativas, lembra o sociólogo. Com a globalização e a profusão de "estranhos", expandiram-se os mecanismos de segregação social - seguranças, grades, crachás, bilheterias, recepções, etc. Em vez de dominar esses "estranhos" ou de fixá-los em padrões, afirma Bauman, a sociologia nos ajuda a lidar com eles. Desse modo, deixa de ser uma ciência dura, que estabelece e define, para se tornar um saber móvel, que busca uma sincronia com o mundo.


"Isso não significa dizer que a sociologia tenha o monopólio da sabedoria no que diz respeito às experiências", alerta Bauman. "Muito embora sem dúvida as enriqueça nos ajudando a compreender melhor com os outros e por meio dos outros." Ciência, antes de tudo, do outro, a sociologia não pode se congelar no culto ao mesmo e à repetição. Ela é um "pensamento que não refreia", define, e facilita o fluxo e a troca de experiência entre os diferentes.


Ainda assim, no confuso mundo de hoje, inquietos, buscamos "soluções" para nosso desassossego. Para conter as incertezas, preferimos nos fixar em uma imagem qualquer, nem que seja na simples aparência. Baseada nas semelhanças, a aparência pode nos dar a ilusão - porque usamos a mesma marca de automóvel, de perfume ou de tênis - de que pertencemos a determinado grupo. Pode nos fazer crer que sabemos onde estamos e quem somos. Quando, na verdade, continuamos perdidos.

Outros "se salvam" da inquietação adotando uma rotina ou imitando rotinas alheias. Essa proximidade, no entanto, não assegura o sentimento de "responsabilidade moral" - que surge quando um sentimento de responsabilidade brota em nós, voltado para o bem-estar e a felicidade do outro. Ao contrário: o sentimento moral, diz Bauman, frequentemente aparece entre pessoas que não têm a mesma aparência e estão fisicamente muito distantes. Nem as aparências nem as semelhanças garantem a fraternidade.




Uma comunidade não se define pela proximidade física ou pelas semelhanças aparentes, ele insiste. Uma comunidade se define por uma "unidade espiritual". Resume: "A comunidade é mais um postulado que uma realidade". Compartilhar as mesmas inquietações e dividir os mesmos ideais, e não estar lado a lado fisicamente ou se espelhar no outro, isso sim é viver em comunidade. As redes sociais se formam graças às expectativas em comum - e não por causa de alguma condição natural ou de coincidências.


O dever moral, admite Bauman, costuma entrar em colisão com o sentimento de autopreservação. "Um não pode reivindicar ser mais natural que o outro." Há, sempre, uma tensão em jogo e é preciso enfrentá-la, administrá-la - embora nunca se chegue a resolvê-la. O mesmo ocorre nas relações amorosas. Nelas, as realidades dos dois parceiros nunca são idênticas. A própria ideia de intimidade pode ser uma armadilha. As diferenças podem ser tão esmagadoras, ele adverte, que os parceiros farão exigências um ao outro que jamais poderão cumprir. Também no amor, o estar ao lado exige respeito. Amar é trocar diferenças e estilos. É mais uma troca que um encontro.




Não se deve esperar, diz Bauman ainda, que a sociologia "solucione problemas". A vida não é um "problema a resolver". Ele alerta: "Cada nova tentativa de ordenar uma parcela ou uma área específica da atividade humana cria novos problemas". Não se deve querer que a sociologia forneça soluções para os conflitos sociais. A sociologia não nos diz como resolver um problema. Ela se limita a apontar o problema com que devemos lidar. E isso já é muito.




É verdade, isso nos frustra. Na sociedade de mercado, lamenta Bauman, só queremos a perfeição. Consumimos compulsivamente, em busca de um estilo de vida perfeito. Nunca o atingimos, e isso perpetua o consumo, mas não nos aproxima de uma solução. "Somos continuamente encorajados a consumir em nossa busca do inatingível - o estilo de vida perfeito em que a satisfação reine, suprema."




Muitos ainda acreditam que sociologia pode nos apontar o melhor caminho rumo à perfeição. Não pode. Nem é para isso que ela existe, adverte. A sociologia, ao contrário, mostra que a solução inexistente é, na verdade, o que nos impede de aceitar o outro e de avançar. É a busca frenética de uma solução que nos impede de viver. Nesse sentido, toda sociologia é uma sociologia da imperfeição. "O grande serviço que a sociologia está preparada para oferecer à vida humana é a promoção do entendimento", diz. Não existe sociologia sem tolerância.



(José Castello)



"Palavras sem obras são tiro sem bala, atiram mas não ferem". (Antônio Vieira)
Sociólogo e Mestre em Políticas Sociais (UENF). Doutorando em Sociologia (UNESP).


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Cel: (22) 8143-1258


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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Reunião oficializa candidatura de Lessa ao governo do Estado

Reunião oficializa candidatura de Lessa ao governo do Estado



Encontro teve a participação de ministros, senadores, deputados e outros políticos; no final do mês a escolha será reafirmada ao presidente Lula
Encontro político define Ronaldo ao Governo de Alagoas (Foto: Assessoria PDT)

Em uma reunião com mais de cinco horas de duração, iniciada na noite dessa quarta-feira (10) e concluída na madrugada desta quinta-feira, na casa do secretário executivo do Ministério do Trabalho e Emprego, André Figueiredo, em Brasília, o grupo político adversário ao PSDB do governador Teotonio Vilela Filho oficializou a candidatura de do ex-governador Ronaldo Lessa ao governo do Estado.



O “Chapão” se mostrou confiante e a escolha do nome foi ratificada por todos os políticos presentes. O senador Fernando Collor (PTB) disse entender que, no momento, Lessa representa bem o interesse do grupo, que também conta com o apoio do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Collor enfatizou a importância do fortalecimento do grupo para o enfrentamento ao PSDB em Alagoas, alertando sobre a necessidade de reversão do atual quadro político.



No final deste mês, segundo a assessoria do Partido Democrático Trabalhista(PDT), os representantes do referido grupo político estarão em Brasília com o presidente da República para a reafirmação da candidatura de Ronaldo Lessa.



“Esse encontro demonstra que todos entendem que a hora de mudar o Estado chegou. Não podemos permitir que Alagoas seja por mais tempo vítima do descaso e do atraso. Devemos nos concentrar no propósito de mudança” - disse Ronaldo Lessa.



Participaram da reunião, juntamente com o candidato Ronaldo Lessa, o senador Fernando Collor de Mello, do PTB, o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, o ministro Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, deputado federal Augusto Farias, do PTB, Eduardo Bonfim, do PCdoB, senador Renan Calheiros, do PMDB, Sandra Menezes, do PV, Benedito de Lira, do PP, o vice-prefeito do Pilar, Renato Canuto, representando o PRB, e a ex-prefeita de Feliz Deserto, Rosiane Beltrão, do PDT e o deputado federal Francisco Tenório, do PMN.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

COTAS: Estimular o debate, subverter o preconceito


O Brasil é um país campeão em desigualdades. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revelam que dos 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza, 70% são negros; entre os 53 milhões de pobres do país, 63% são negros. Estudo realizado pelos sociólogos Rosângela e Walter Praxedes, com base na Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio do IBGE, mostra que entre 1992 e 1999, a taxa de analfabetismo teve redução em todos os grupos de cor, mas “entre negros e pardos ainda são quase três vezes maiores do que entre brancos” [2]. Em 1992, 10,6% dos brancos eram analfabetos, 28,7% dos pretos (nomenclatura oficial do IBGE) e 25,2% dos pardos. Em 1999, 8,3% dos brancos, 21% dos pretos e 19,6% dos pardos eram analfabetos.
Atualmente 95% de nossas crianças em idade escolar estão matriculadas no ensino fundamental. No entanto, este significativo avanço de inclusão de alunos matriculados na escola básica não vem acompanhado com a melhora da qualidade do ensino. Pelo contrário, os baixos salários, a não qualificação continuada do corpo docente, as péssimas condições de trabalho e de estudo e a falta de uma política educacional por parte do Estado brasileiro, são fatores desestimulantes ao processo de ensino/aprendizagem que o país necessita. Com isso há uma brutal evasão escolar.
Tanto que apenas 9% dos jovens entre 18 e 24 anos conseguem chegar à universidade, percentagem preocupante se compararmos com outros países da América Latina. Dos alunos matriculados no ensino superior apenas 2% estão estudando em uma instituição pública, o que torna o sistema ainda mais excludente.
Estudos do professor José Jorge de Carvalho, do Departamento de Antropologia da UNB, demonstra um outro lado desta exclusão perversa: 97% dos atuais universitários brasileiros são brancos, contra 2% de negros e 1% de amarelos. O desequilíbrio, num país em que 45% da população é negra, deixa claro que são necessárias medidas urgentes para inserção do negro no ensino superior.[3]
E o que a universidade brasileira tem feito para isso. Muito pouco. Ela tem silenciado diante da tragédia que se abateu sobre o ensino básico público desse país, como também não tem lutado a contento para que as universidades públicas possam expandir e absorver a grande demanda social por vagas. 
Neste sistema de exclusão, quem mais perde é o país. Imaginem quantos cientistas, quantos filósofos, quantos historiadores, quantos educadores, quantos médicos ou outros profissionais da saúde que poderiam estar contribuindo com o futuro do Brasil, mas ficaram excluídos em um rincão qualquer do interior ou nos bairros populares das médias e grandes cidades. Ou nós invertemos o foco e giramos nossas lentes para qualificar o ensino fundamental e médio, ou estaremos relegando a esse país um futuro infeliz.
A questão das cotas é uma luz que se coloca neste cenário. E penso que nós avançamos mais ainda quando deslocamos a questão das cotas do viés racial, para o debate das cotas para escola pública, porque incorpora uma dimensão social importante. Sabemos, porém, que as cotas não resolvem o problema. Pois uma universidade que recebe apenas 9% dos alunos em condições de estudar nela, sempre será uma universidade de elite, com cotas ou sem cotas.
O que precisamos é a expansão do sistema, o aumento do número de vagas, ou mais ainda: acabar com o perverso sistema de ingresso chamado vestibular. Como diz o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aloisio Teixeira: “enquanto existir o vestibular, vai haver uma barreira intransponível para o povo entrar na universidade”[4].
É evidente que acabar com o vestibular requer conceber um novo sistema de ensino, rediscutir as relações entre o ensino superior e os níveis fundamental e médio, criando critérios para que os egressos desse níveis possam entrar na universidade independente da sua condição social. Daí que o debate sobre as cotas, seja ela racial ou social, deve ser encarada como uma medida paliativa e temporária, pois a verdadeira inclusão educacional somente virá com a adoção de políticas públicas voltadas para salvar o ensino fundamental e médio e ampla expansão de vagas públicas e gratuitas no ensino superior para os nossos jovens.
As políticas de ação afirmativa vêm sendo implementadas, com sucesso em diversos países. A Índia, após tornar-se independente em 1947, adotou um sistema baseado em cotas, o qual destinou, aos chamados “intocáveis”, cerca de 22,5% das vagas na administração e no ensino públicos. Essa medida tinha como objetivo a correção das desigualdades advindas do sistema de castas e da subordinação da chamada “origem divina”. Na Malásia a etnia bimiputra recebeu tratamento etnicamente diferenciado, com o objetivo de que fosse promovido seu desenvolvimento econômico. Entre 1982 e 1996, aproximadamente 25 países adotaram, de acordo com dados fornecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), intervenções políticas visando a eliminar as discriminações sexual e racial ou implementado mecanismos de discriminação positiva nas relações de trabalho. Nos anos noventa, países como Ilhas Fiji, Malásia, Canadá, Índia e Austrália adotaram políticas de ação afirmativa no combate às desigualdades culturais. Na Europa, é possível encontrá-las, aplicadas às desigualdades de gênero[5].
No Brasil, o debate sobre cotas também não é novo. Haja vista a determinação de que 30% das vagas para eleições proporcionais sejam ocupadas por mulheres; que o serviço público deva empregar pelo menos 5% de funcionários portadores de deficiências; ou que sejam reservados lugares especiais para idosos em locais e transportes públicos.
Sabemos que o sistema de cotas para negros nas universidades gera polêmica e divide opiniões. Há vários argumentos contra e a favor. Tanta incerteza, no entanto, tem um ponto positivo: a reserva de vagas gera um debate importante sobre o racismo no Brasil, um país onde o preconceito existe, ainda que de forma velada.
Por isso a necessidade do debate. Não precisamos ter medo dessa discussão. Dispamo-nos de nossos preconceitos e aportemos a esse debate a nossa contribuição.